Os problemas de saúde que atingem as grandes cidades

“Se meus versos de amor não chegam até você, é porque estão presos na Marginal Tietê. Se meus versos de amor não chegam inteiros, é porque se acidentaram na Marginal Pinheiros.” É com poemas como esse que os Poetas Ambulantes transformam a experiência dos passageiros de ônibus, trens e metrôs da cidade de São Paulo.

Infelizmente, a rima não foge às estatísticas. Em 2017, 883 pessoas não chegaram aos seus destinos e morreram nas vias paulistanas, segundo dados do governo estadual. Mais difícil de quantificar, porém, é o número de cidadãos que adoecem todo ano por causa do trânsito, da poluição e da sensação de insegurança típicas de uma grande metrópole.

Foi preocupado com esse cenário – que ainda conta com mudanças climáticas e falta de saneamento e infraestrutura adequada – que o patologista Paulo Saldiva, diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, decidiu escrever e lançar o livro Vida Urbana e Saúde (Editora Contexto). “A obra nasceu principalmente porque eu comecei a sentir São Paulo. Primeiro como asmático. Depois, ao fazer autópsias e enxergar a impressão digital da metrópole no corpo das pessoas. Vi, por exemplo, placas de gordura nas artérias de bebês e marcas de carbono nos pulmões de muitos paulistanos”, conta o médico.

Por essas e outras, para o especialista, tratar apenas o organismo dos pacientes não é mais o bastante nos dias de hoje. “É preciso romper as barreiras dos consultórios e hospitais e olhar para as ruas, praças e avenidas a fim de tomar medidas de promoção à saúde”, defende. No livro, Saldiva procura demonstrar os principais desafios nesse sentido e discutir soluções (individuais e coletivas) para minimizá-los.

A patologista Evangelina Vormittag, idealizadora do Instituto de Saúde e Sustentabilidade, na capital paulista, concorda com essa nova forma de enxergar o espaço urbano. “Quem discute poluição do ar? O gestor de meio ambiente. E o trânsito? O de transporte. Quem cuida da saúde, por sua vez, acaba focado apenas na questão assistencial. Precisamos mudar isso”, diz a diretora da entidade, fundada justamente para combater os efeitos nocivos da urbanização no bem-estar.

A inquietação dos experts vem embasada em fartos dados sobre o impacto de tráfego intenso, poluentes e companhia na saúde física e mental. E, ainda bem, já alimenta iniciativas para reverter a situação.

Na USP, por exemplo, o biólogo Marcos Buckeridge coordena o programa Cidades Globais, que agrega vários campos do conhecimento para trazer abordagens mais completas aos problemas. “A gente busca integrar diversos projetos e linhas de pensamento para ajudar a desenvolver políticas públicas que sejam mais eficientes”, explica.

Uma das propostas do grupo é incentivar a criação de áreas verdes e estimular as pessoas a viverem mais próximas de locais arborizados. O que elas ganham com isso, além de sombra e do canto dos passarinhos? Um menor risco de sofrer encrencas cardiovasculares. “Morar perto de uma área verde reduz a exposição à poluição, o que representa uma queda de quase 30% na probabilidade de morrer de infarto”, destaca Saldiva. “Isso é mais do que o efeito dos remédios para pressão e colesterol prescritos em consultório”, completa.

Chegou a hora de conhecer as doenças das metrópoles – e os tratamentos previstos para contê-las.

Números acusam a urgência da situação
185 milhões de brasileiros vivem em cidades – é quase 90% da população.
82 milhões de pessoas em nosso país se encontram acima do peso.
300 mil brasileiros morrem todo ano de doenças cardiovasculares.
50 mil cidadãos perdem a vida anualmente devido à poluição.
11,5 milhões de pessoas no Brasil estão com depressão.
Fontes: Censo de 2010, Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde (OMS) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Poluição
De acordo com Saldiva, é como se fumássemos um cigarro a cada duas horas que passamos no trânsito intenso. Não à toa, os poluentes dos escapamentos e das chaminés já se tornaram a maior causa ambiental de adoecimento e morte. “E os principais efeitos são cardiovasculares, não respiratórios”, elucida Evangelina.

Uma vez inaladas e absorvidas, as substâncias tóxicas semeiam estragos. “A começar pelo aumento da pressão arterial e pelo estado de inflamação nos vasos”, diz o médico Cláudio Tinoco, diretor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro.

“Falamos de um problema que atinge a todos e pode ter um impacto ainda maior na população das periferias, que tem menos acesso a saúde e áreas verdes e passa mais tempo no trânsito”, nota Américo Sampaio, gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo.

O que a poluição do ar apronta no organismo
No coração: As impurezas propiciam pressão alta, obstrução das artérias e insuficiência cardíaca.

Nos pulmões: O aumento no volume de poluentes está associado a mais internações por doença respiratória.

No sangue: Há alterações nos níveis de hormônios como o cortisol, o que mexe com a resposta do corpo ao estresse.

Na pele: Os poluentes aceleram seu envelhecimento devido ao aumento dos radicais livres.

No resto do corpo: Estudos mostram um elo entre o ar poluído e o maior risco de câncer de bexiga, pulmão e mama.

Como atenuar a exposição à sujeira atmosférica
Pela manhã: Dê preferência para sair pelas ruas e praticar exercícios logo cedo. Tem menos poluentes no ar.

Vidro fechado: Em meio a um congestionamento, mantenha os vidros fechados para se blindar da fumaça.

Comes e bebes: Manter-se hidratado e caprichar em frutas e hortaliças deixa o corpo mais apto a se proteger da poluição.

Top 5 da poluição
Veja as cidades campeãs brasileiras. O ideal é não passar de 20 microgramas por metro cúbico de ar

1. Rio de Janeiro (RJ)
64 microgramas por metro cúbico

2. Cubatão (SP)
48 microgramas por metro cúbico

3. Campinas (SP)
39 microgramas por metro cúbico

4. São Paulo (SP)
38 microgramas por metro cúbico

5. Curitiba (PR)
29 microgramas por metro cúbico

Fonte: Organização Mundial da Saúde

Mudanças climáticas
Já ouviu falar em ilhas de calor? É como se a cidade estivesse com febre. O asfalto e o concreto absorvem radiação solar e devolvem a quentura para a superfície. Aí, a diferença de temperatura pode variar em até 10 ºC do centro, onde se concentram os prédios, à periferia. Essa oscilação tem impacto direto na saúde.

No polo mais frio, cresce o risco de infecções como pneumonia. “Isso ocorre por causa do resfriamento dos pulmões, que altera o sistema de limpeza das vias aéreas e enfraquece os mecanismos de defesa”, explica Saldiva. No lado mais quente, por sua vez, o perigo está na perda de líquidos com o suor, que pode levar à desidratação. “Assim, o sangue fica mais concentrado, facilitando a formação de trombos”, alerta o médico.

A saída está na ampliação das áreas verdes (inclusive nas zonas centrais), já que ajudam a restabelecer o equilíbrio térmico da cidade.

Imobilidade
Não bastasse servir de combustível ao estresse, ficar horas no trânsito ou dentro de um trem lotado também conspira para o aumento de peso e outros perrengues de saúde. “Longos períodos sentado ou em pé influenciam a circulação do sangue e podem propiciar inchaço nas pernas e até varizes“, exemplifica a médica Ana Paula Maia Pires, da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular.

Para driblar esses riscos, o ideal é investir em meios de transporte mais ativos, como a bicicleta e a caminhada – claro que a distância e a segurança vão pesar na escolha aqui. Mas pode valer a pena.

Um estudo publicado no periódico The Lancet constata que trocar o carro pela bike diminui o índice de massa corporal e é uma medida viável de saúde pública. “Em São Paulo, já vemos uma movimentação. Há uma adesão maior à bicicleta, já existem associações de caminhada a pé e a sociedade civil vem se organizando para que as calçadas se tornem transitáveis”, expõe Saldiva.

Top 5 do trânsito
Levantamento da 99, do app de mobilidade, mostra as cidades mais paradas

1. Niterói (RJ)
Deslocamentos em horário de pico demoram 78% a mais que nos horários livres

2. Recife (PE)
77% a mais

3. Porto Alegre (RS)
74% a mais

4. Goiânia (GO)
72% a mais

5. Salvador (BA)
71% a mais

Ideias para um transporte mais ativo
Caminhe: A depender do horário e das condições da via, é uma opção segura e tranquila de ir ao trabalho.

Vá de bike: Ciclovias e ciclofaixas permitem lançar mão dessa opção, que ainda queima calorias.

Dê carona: Esquemas de carona entre colegas juntam a turma e ainda tiram outros carros da rua. Dá para revezar.

Violência
O Atlas da Violência 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que 123 dos municípios brasileiros concentram metade dos homicídios do país. Entre as cinco cidades mais violentas com população acima de 100 mil habitantes, quatro estão na Bahia.

No ranking, as capitais violentas têm nove vezes mais pessoas na extrema pobreza do que as cidades pacíficas. Desigualdade de renda, desemprego e falta de acesso a educação são alguns dos fatores por trás do fenômeno, que gera insegurança e contribui para casos de ansiedade, pânico e depressão. “O sentimento de medo constante tem potencial para estimular a produção desenfreada dos hormônios do estresse”, descreve a psiquiatra Laura Helena de Andrade, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPq-HCFMUSP).

Top 5 da violência
Taxas acima de 10 homicídios por 100 mil habitantes indicam um perigo epidêmico

1. Queimados (RJ)
134,9 homicídios por 100 mil habitantes

2. Eunápolis (BA)
124,3 homicídios por 100 mil habitantes

3. Simões Filho (BA)
107,7 homicídios por 100 mil habitantes

4. Porto Seguro (BA)
101,7 homicídios por 100 mil habitantes

5. Lauro de Freitas (BA)
99,2 homicídios por 100 mil habitantes

Fonte: Atlas da Violência 2018

Transtornos mentais
Uma pesquisa do IPq-HCFMUSP revela que mais de 40% da população de São Paulo já passou ou estava passando por episódios de depressão ou ansiedade graves o suficiente para alterar suas rotinas. No Rio de Janeiro, a prevalência é de 17% e, em Porto Alegre, 12%.

Especialistas afirmam que a tensão, o desamparo e a solidão das grandes cidades são os principais responsáveis pelo quadro. “A vida urbana propicia um estresse que está na base de boa parte dos transtornos mentais”, interpreta Laura Helena.

A falta de sono também dá seu quinhão de contribuição. “Durante o sono, são secretados hormônios, como a melatonina, que resguardam nossas capacidades cognitivas e comportamentais”, informa Saldiva. É barulho até altas horas, gente chegando tarde do trabalho, celular na cama… Os experts orientam rever a rotina, incluir períodos de lazer na agenda e priorizar a hora de dormir para… dormir mesmo.

Doenças contagiosas
Um amontoado de gente vivendo em condições sanitárias inadequadas é a fórmula perfeita para a disseminação de vírus, bactérias e outros germes. E, pra complicar, algumas capitais brasileiras ainda pecam ao não conseguir tratar direito o esgoto. Quem paga o preço, em geral, são os cidadãos menos favorecidos – em Parelheiros, bairro no extremo sul da capital paulista, quase 70% das casas não têm rede de esgoto, enquanto na República (região central) 99,87% dispõem de cobertura.

Os agentes infecciosos variam de acordo com a região e a época do ano. “De forma geral, as infecções do trato gastrointestinal predominam em locais onde as condições de vida são mais precárias. E as infecções das vias aéreas prevalecem nos períodos mais frios do ano”, resume o infectologista Carlos Starling, da Sociedade Brasileira de Infectologia. Infraestrutura básica, cuidados de higiene e vacinação ajudam a frear as causas e consequências do problema.

Pragas urbanas
Dengue: Os quadros vão de leve a grave, inclusive com hemorragia. Crianças e idosos correm maior risco.

Zika: Famoso pela microcefalia em bebês, também pode induzir estragos no sistema nervoso de adultos.

Chikungunya: O vírus causa fortes dores nas articulações, que podem se tornar crônicas.

Febre amarela: O surto recente foi o mais mortal desde a década de 1980. A melhor prevenção está na vacina.

Obesidade
Mais da metade dos brasileiros está acima do peso – e essa mesma realidade já atinge 30% das nossas crianças. “E o ambiente das cidades é um convite ao sedentarismo”, avalia Tinoco.

Além de o espaço e a falta de tempo não inspirarem uma rotina ativa, há uma ampla oferta de alimentos práticos e baratos, normalmente os que entregam mais calorias e menos nutrientes. “A maioria dos fast foods oferece opções ricas em gorduras e carboidratos e que não contêm a quantidade necessária de fibras“, observa a médica Carmen Manzione, da Sociedade Brasileira de Coloproctologia.

A violência nas ruas, consequência do trânsito e da criminalidade, também colabora com a obesidade, principalmente a infantil, já que limita o acesso ao espaço urbano. O que podemos fazer? Que tal incentivar a família a se exercitar e se alimentar com equilíbrio desde cedo e cobrar as autoridades para criar um ambiente mais propício a escolhas saudáveis?

O top 5 do peso
As capitais com o maior percentual de pessoas com quilos a mais

1. Rio Branco (AC)
60,6% dos cidadãos acima do peso

2. Campo Grande (MS)
58% acima do peso

3. Natal (RN)
56,6% acima do peso

4. João Pessoa (PB)
56,6% acima do peso

5. Fortaleza (CE)
56,5% acima do peso

Cidades que são exemplo em qualidade de vida
Palmas (TO): Planejada e sem trânsito, tem o menor índice de hipertensos e pessoas acima do peso no país.

Brasília (DF): A capital tem infraestrutura e organização e conta com bons hábitos alimentares.

Florianópolis (SC): Além das belezas naturais, a cidade tem a taxa mais alta de habitantes que praticam exercícios.

Fonte: Vigitel/Ministério da Saúde 2017

Fonte: Abril

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