Como usar a ansiedade a seu favor

Quando tinha uns 10 anos, minha mãe imaginou que seria uma grande ideia me forçar a participar do concurso de “Mais bela caipira” em uma festa junina promovida no condomínio em que morávamos, em Porto Alegre. Minha irmã mais nova também iria participar, era bonita, graciosa e desinibida. Já eu… À época, era vítima de uma timidez possivelmente patológica e passei a festa inteira em uma expectativa dolorosa de ter de enfrentar a passarela improvisada no estacionamento do condomínio, os olhares dos vizinhos, a vergonha. Eu iria tropeçar. Cair. Ser desengonçada e todos iriam rir de mim. Quando chegou a minha vez, estava à beira das lágrimas. A apresentadora chamou meu nome e não tive dúvidas: embalei uma corrida que só parou quando estava a salvo, no meu quarto, em casa. Para tirar o nome da família Barreto da lama em que eu o meti, minha irmã ganhou o concurso.

Quase todo ansioso tem uma história de paralisia, constrangimento ou angústia parecida para contar. E, para quem vive assim, parece impossível que a ansiedade tenha algum lado bom, além de antecipar temores com alguma chance de serem reais (cruzar com uma cobra na floresta, um tubarão em alto-mar ou um péssimo motorista em alta velocidade na Dutra). Mas tem.

Quem me conhecesse entre a infância e a pré-adolescência, passasse 20 e poucos anos sem me ver e me encontrasse por acaso hoje, ficaria surpreso. Embora ainda tenha traços de timidez e fique muito ansiosa em fazer apresentações, palestras e afins em público, consegui reprogramar parte da minha ansiedade, transformando a angústia em um estimulante – foi o jeito de sobreviver. A antecipação de um evento estressante, trocando em miúdos, pode motivar um gás extra no esforço e na preparação para esse evento, um processo que a professora adjunta de administração de empresas da Harvard Business School Alison Wood Brooks chamou de pessimismo defensivo. “Quando os indivíduos têm ideias negativas sobre eventos futuros, eles trabalham mais para evitar possíveis resultados desfavoráveis, e preparam-se mais profundamente”, diz, em artigo publicado em 2013. Níveis muito altos de ansiedade prejudicam o desempenho; no entanto, o mesmo acontece com taxas baixas da mesma sensação.

A ansiedade na medida pode melhorar a motivação em tarefas que exijam resistência ou persistência – essa é a premissa da Lei de Yerkes-Dodson, uma pesquisa desenvolvida pelos psicólogos norte-americanos Robert Yerkes e John Dodson no longínquo ano de 1908. A regra determina que tarefas mais difíceis intelectualmente demandam menos ansiedade, porque requerem concentração; já as tarefas que dependem mais de persistência pedem níveis mais altos de excitação, sentimento que seria capaz de ampliar a motivação.

Reprogramando as sensações

Mas é só até aí que a ansiedade de raiz pode ajudar. A ansiedade técnica, digamos, que sirva aos nossos propósitos, precisa ser construída. Pessoas ansiosas ruminam as tarefas e desperdiçam tempo (alguém falou meu nome?), têm baixa autoconfiança e fecham mais maus negócios por ter aversão ao risco.

Um exemplo da reprogramação é quando perdemos alguém que nos é importante, seja por morte, distância ou pé na bunda. No começo, a dor nos consome; com o passar do tempo, num processo sadio de luto, o sentimento vai se transformando em uma sensação mais confortável de saudade, carinho ou esquecimento. “Uma literatura substancial demonstra que a reavaliação de emoções é mais eficaz que suprimi-las. A supressão significa que um indivíduo continua a sentir, mas esconde o sentimento de si ou de quem o rodeia. A supressão pode conduzir a um aumento paradoxal da experiência da emoção”, diz Alison. Em resumo, não adianta varrer a ansiedade para baixo do tapete. Ela estará à espreita.

Aceitar a própria ansiedade é um truque eficaz para mantê-la sob controle e atenuar seus efeitos. Alison sugere que a transformação da ansiedade em excitação é a fórmula mágica para fazê-la jogar a seu favor. “Embora tenham efeitos divergentes sobre a cognição, motivação e desempenho, ansiedade e excitação são notavelmente semelhantes no organismo”, diz a pesquisadora. De fato, taquicardia, frio na barriga e antecipação de sensações estão todos neste pacote.

Modo de usar

A partir dessa observação, Alison usou diferentes abordagens em grupos de pesquisa. Em um deles, desafiou os participantes a cantar em público. Antes das performances, os fez dizer em voz alta que estavam empolgados – uma tentativa de renomear a sensação de ansiedade. Em outro, a turma participou de desafios matemáticos, e diferentes grupos leram imediatamente antes da prova cartazes com os dizeres “fique calmo”, “fique excitado” ou “espere alguns minutos” (neutro, para fins de comparação). Durante o teste, outros dizeres na mesma linha apareciam nos computadores dos grupos. A turma empolgada foi significativamente melhor no teste que as de calmos e neutros. “Reprogramar a ansiedade e transformá-la em excitação, mesmo com intervenções sutis, podem levar as pessoas a se concentrar no resultado em vez de pensar no que pode dar errado”, afirma Alison.

De minha parte, para driblar meu terror de estar em público – sou jornalista e dou palestras para estudantes e colegas, eventualmente -, recorri a alguns truques. Conforme preconiza a terapia cognitivo-comportamental (TCC), parei de evitar e comecei a procurar situações em que me expusesse – esquivar-se costuma ampliar o medo. Ao falar em público, tento criar uma situação de empatia, avisando de antemão que estou nervosa e que posso gaguejar ou errar – assim, quando acontecer, se acontecer, todos estarão preparados, inclusive eu, então a ansiedade perde a razão de ser. E, como Alison defende, procuro dizer a mim mesma que, ora bolas, se me chamaram para fazer isso, alguma capacidade tenho de ter – e passo a ficar mais empolgada que aterrorizada com a possibilidade. Parafraseando a professora ao final do artigo, em vez de tentar Keep calm and carry on (Fique calmo e continue) talvez o caminho do sucesso seja dizer Keep on fire and carry on (Fique agitado e continue).”

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